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Governo deixa de informar total de mortes e casos de Covid-19; Bolsonaro diz que é melhor para o Brasil


Última atualização em 08/06/2020 10:21, por Rebeca Andrade

O Brasil restringiu a divulgação de dados sobre o impacto do novo coronavírus no país. Desde a noite de sexta-feira, o Ministério da Saúde não mais informa o total de mortes e nem o total de casos confirmados da Covid-19 durante a pandemia.

O portal do Ministério da Saúde com as informações consolidadas saiu do ar na noite da sexta-feira (5), e só retornou na tarde deste sábado (6). Agora, a página mostra somente os números registrados no último dia.

O presidente Jair Bolsonaro confirmou a mudança na metodologia de divulgação sobre vítimas da Covid-19 — que pode significar, na prática, a divulgação de números de mortes menores —, engrossando as críticas de que o governo pretende manipular dados da pandemia.

A pasta vai passar a divulgar apenas os números de mortes e casos de infecção pelo coronavírus registrados nas últimas 24 horas, o que resultaria em números muito inferiores aos atuais. Desde o início da pandemia, o Ministério vinha divulgando com destaque os números de mortes e casos que foram confirmados para a Covid-19 nas últimas 24 horas, incluindo casos de mortes ocorridas em outras datas, mas cuja confirmação para o coronavírus tenha ocorrido no último dia.

O governo também deixou de divulgar o total de casos em investigação para a doença, que até quinta-feira (4) era de 4.159.

As mudanças ocorrem após dois dias seguidos com recorde de mortes e divulgação tardia dos números. O país é o terceiro no mundo com mais mortes acumuladas em decorrência da doença, mais de 35 mil, e acumula mais de 640 mil casos de coronavírus, número que, segundo especialistas, pode ser múltiplas vezes maior devido à baixa testagem no país.

Em uma nota postada por Bolsonaro nas redes sociais, o Ministério da Saúde afirma que o formato usado desde o início da pandemia não oferece uma representação do “momento do país”, posição que contrasta com a da maioria dos especialistas.

Questionado sobre a mudança da metodologia neste sábado (6), durante uma visita que fez a Formosa (GO), Bolsonaro não quis responder.

As movimentações do governo causaram fortes críticas nos meios político e jurídico. Parlamentares veem risco de manipulação dos números e preparam ações ao STF (Supremo Tribunal Federal) para garantir transparência sobre a realidade da pandemia.

As críticas se intensificaram também com declarações do novo secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, sobre recontagem do número de mortes causadas pela Covid-19, noticiadas pelo jornal O Globo.

Em entrevista à Folha de S.Paulo neste sábado, Wizard confirmou que há uma intenção dentro da pasta de rever os critérios, mas para os próximos dados. “O passado já passou, estamos preocupados daqui para a frente”, afirma.

Na quarta-feira, foram 1.349 óbitos. No dia seguinte, o Brasil teve novo recorde de mortes (1.473), atingindo a marca de mais de um morto por minuto em decorrência da Covid-19.

O modelo que será abandonado também é usado na divulgação dos dados por praticamente todos os países.

O texto da nota argumenta que a divulgação dos dados de 24 horas permite acompanhar a realidade do país neste momento e definir as melhores estratégias para o atendimento da população.

“A curva de casos mostra as situações como os cenários mais críticos, as reversões de quadros e a necessidade de preparação”, informou o texto, que em seguida critica o modelo anterior de divulgação.

“Ao acumular dados, além de não indicar que a maior parcela já não está com a doença, não retratam o momento do país. Outras ações estão em curso para melhorar a notificação dos casos e confirmação diagnóstica”, afirma o texto da nota.

O Ministério também defendeu a divulgação dos dados tarde da noite, após as 22h. Na nota postada por Bolsonaro, a pasta argumenta que havia o risco de subnotificação quando os boletins do coronavírus eram tornados públicos às 17h (como era feito durante a gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta) e às 19h (gestão de Nelson Teich).

Na primeira vez em que houve atraso na divulgação, na quarta-feira (3), o Ministério da Saúde havia informado que excepcionalmente os números seriam informados às 22h, devido a “problemas técnicos”. Naquele dia, o país registrou recorde de mortes.

No dia seguinte, quando o Brasil outro recorde de mortes, a pasta novamente divulgou o boletim após as 22h.

O horário de divulgação, portanto, se dá após a conclusão dos principais jornais diários e também após a transmissão dos principais telejornais da noite.

Ao comentar a questão, na sexta-feira (5), o presidente não confirmou ter dado a ordem para a mudança de horário e alegou que os números sairiam mais consolidados às 22h. Por outro lado, comentou que “acabou matéria no Jornal Nacional”, em referência ao telejornal da Rede Globo.

“Não interessa de quem partiu [a ordem para modificar o horário], é justo sair às 22h, é o dado completamente consolidado. Muito pelo contrário, não tem que correr para atender a Globo”, disse.

A nota postada por Bolsonaro também afirma que está havendo adequação de rotinas e fluxos para melhorar extrair os dados diários, o que necessitaria, afirma o texto, aguardar relatórios vindos das secretarias de saúde dos estados e checar os dados.

“Para evitar subnotificação e inconsistências, o Ministério da Saúde optou pela divulgação às 22h, o que permite passar por esse processo completo. A divulgação entre 17h e 19h, ainda havia risco de subnotificação”, afirma o texto.

A mudança no horário de divulgação não foi a única mudança registrada após as sucessivas trocas de ministros da Saúde.

Após a saída de Luiz Henrique Mandetta, por exemplo, as entrevistas coletivas para explicar os números e apresentar as medidas de combate à pandemia deixaram de serem diárias.

O fluxo de entrevistas diminuiu ainda mais após a saída de Nelson Teich, que permaneceu menos de um mês no cargo. Teich deixou a pasta por divergência com o presidente a respeito do protocolo para a administração da cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes que não estejam em estágio grave da Covid.

Com o atual ministro interino, o general Eduardo Pazuello, as entrevistas coletivas passaram a contar apenas com técnicos da pasta de segundo escalão, como secretários substitutos.

O formato também mudou. Os presentes deixaram de responder questões sobre a previsão de pico da pandemia de coronavírus no Brasil.

O secretário substituto de vigilância em saúde, Eduardo Macário, também já havia criticado as perguntas sobre o atual estágio da pandemia no Brasil e criticou a imprensa por usar a expressão “recorde de mortes”.

Folhapress